O que é a burrice?
A burrice, ao contrário do que o nome sugere, não é falta de inteligência.
Há pessoas muito inteligentes que são profundamente burras — apenas de formas mais sofisticadas.
No Observatório, usamos “burrice” como uma forma curta (e ligeiramente cruel) de falar de um conjunto bastante conhecido de fenómenos humanos: enviesamentos cognitivos, pensamento tribal, resistência à evidência, simplificação excessiva, medo do diferente e uma necessidade quase comovente de ter razão, mesmo quando não se sabe bem sobre o quê.
A burrice aparece quando a certeza chega antes da compreensão.
Quando a identidade chega antes do argumento.
Quando o “nós” chega antes do “porquê”.
Não tem ideologia fixa, não vota sempre no mesmo sítio, não usa sempre o mesmo discurso. A burrice adapta-se. Aprende palavras novas. Muda de roupa. Frequenta tanto universidades como caixas de comentários.
O que tem de estável é isto: uma preferência sistemática por explicações simples para problemas complexos e por narrativas confortáveis para realidades desconfortáveis.
É por isso que a burrice é tão resistente. Não porque seja forte, mas porque é útil. Protege-nos do esforço de pensar, do desconforto de duvidar e do trabalho de mudar de ideias.
E isso, infelizmente, funciona.